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Renascer através de outros olhos

O dia que renasci através de outros olhos!

Já na primeira consulta uma pergunta que sempre vem à mente das futuras mamães é: qual a data prevista de parto? E no meu caso a data prevista seria dia 8 de janeiro de 2015. Ainda bem que a data é apenas prevista, pois o João Henrique resolveu nascer um mês antes. Eu fiquei cerca de um mês de repouso, meu colo do útero estava começando a ficar amolecido.

Na última consulta antes do João Henrique nascer a médica havia dado uma semana de prazo, seria dia 12 de dezembro de 2014, uma sexta-feira, mas meu menino resolveu vir dois dias antes. Era 10 de dezembro de 2014, quarta-feira. As 10h40min da manhã tínhamos a consulta derradeira agendada para ver se chegaríamos até o dia 12. Eu estava com 36 semanas e cincos dias de gestação. Já havia tirado da minha cabeça a ideia do parto normal. Por conta da minha trombofilia o risco de qualquer complicação era grande, e se eu o deixasse vir ao natural o risco de trombos era maior ainda, e eu já tinha alguns trombos na placenta. Não iria coloca-lo em perigo.

Três dedos de dilatação, cesárea marcada para as 21h e lá estávamos eu e meu marido a caminho do hospital. Mil e uma coisas passaram pela minha cabeça, eu só pensava que naquela noite eu teria o meu pequeno nos braços e a sensação era estranha, confesso. Estranha, pois não tinha como descrevê-la.  Acho que até hoje, um ano e nove meses depois, não consigo explicar. O dia foi tranquilo, apesar de passar ele em trabalho de parto.

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Descobri depois que sou uma boa parideira, não sinto muita dor. As enfermeiras me perguntavam o grau de dor e para qualquer outro ser humano seria um oito, talvez nove, mas para mim era um seis. Aquela tarde parecia que não passava. O quarto estava cheio e isso me deixava feliz. Amigos e familiares, estávamos todos ansiosos esperando o João Henrique chegar. O enfeite da porta da maternidade já estava posto, as lembrancinhas organizadas, o hobby de oncinha separado, minha amiga Fabi tirava as fotos e o batom e a maquiagem meticulosamente passada. Quase próximo ao horário marcado nos dirigimos à maternidade, e aquele corredor nunca foi tão longo. Eu estava a minutos de conhecer o nosso filho. Saber que o teria nas mãos me deixava tranquila e ao mesmo tempo em choque, confesso.

Entrei na maternidade e conversei com o João Henrique, ainda na barriga, como uma espécie de hora do tchau, um momento meu e dele, nosso último momento sendo apenas um. Expliquei que em minutos ele estaria em meus braços e que seríamos três. Eu, Henrique e João Henrique. A picada da anestesia não doeu nada, toda aquela história da dor da RAC, tipo da anestesia, não a senti, acho que senti mais adrenalina que no dia que fiz rafting. Meu coração batia descompassado e os próximos trinta minutos foram os trinta minutos mais longos da minha vida. Eu queria que tudo ficasse bem.

Existia a possibilidade de o pulmão do João Henrique não estar bem formado, apesar de eu ter tomado a injeção para acelerar este processo. E a única coisa que eu queria era ouvir o seu choro. Ai depois eu estaria aliviada. Certa vez lendo textos sobre o nascimento de bebês, li que o primeiro sentimento que surge após a chegada não é o amor, e sim o alívio. Alívio do seu filho ter nascido com saúde, alívio por ter dado tudo certo no parto, alívio por saber que aquela placenta que abrigou o seu filho não teria mais trombos para impedir qualquer crescimento. Alívio.

Quando João Henrique nasceu a primeira pergunta que fiz ao meu marido foi, e o pulmão dele? E a resposta foi, está bem. Mas eu senti que não estava bem e que algo estava errado. A pediatra me entregou o JH nos braços, tiramos uma foto e só a ouvi dizer prepara a CTI, que estamos subindo (ou descendo, sempre confundo). Henrique passou por nossos familiares na porta da maternidade e internou o nosso filho. João Henrique Muccini Longhi nasceu com 2.885kg e 49cm, as 21h32min, saudável, porém com dificuldade para respirar. Meu medo se confirmou e lá se foi meu pequeno guerreiro para a neonatal fazer surfactante. Pude pegar ele no colo apenas um dia depois do seu nascimento. Eu sabia que ele estava bem e que precisava apenas de uma ajuda para respirar. Mas, internamente, já começava a primeira cobrança, por que ele precisaria passar por tudo aquilo. E ai a leoa nasceu.

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Foram cinco dias de CTI neonatal e seis no hospital por conta do pulmão e de uma infecção. Nestes dias descobri uma vida paralela. Uma vida de mães de bebês prematuros e que desde que nasceram já lutam para viver. O meu pequeno na CTI era o maior. Ao seu lado tinha um menino de pouco mais de 600 gramas, e aquilo sim me assustou. Eu só poderia agradecer e dizer muito obrigada a Deus pela saúde do meu filho.

No lactário, uma das experiências mais diferentes que já vivenciei, conheci uma mãe que havia ganhado gêmeos há 90 dias, e um deles infelizmente faleceu, o outro estava na época com 2.200kg, e a alegria do ganho de peso foi compartilhada pela primeira vez. Naquele momento eu vi que cada grama contava. E que o fato de você ir ao lactário e no meu caso ficar uma hora e meia para sair 10ml de colocostro era a tradução de amor. Aprendi a compartilhar alegrias, a alegria compartilhada por cada alta, por cada grama conquistada, por cada pequena vitória. Dia a dia as vitórias eram compartilhadas em uma família que se formava na CTI. Quando João Henrique foi para o quarto chorei tanto, mas tanto que a felicidade e o medo tomaram conta de mim, mas ai veio a leoa pronta para cuidar, zelar e brigar com quem fosse preciso pela sua cria.

Dez dias depois, cem gramas perdidas, o primeiro banho dado, a primeira roupa posta, sem mais máquinas, cateteres e picadas nos pequenos braços do meu bebê, recebemos a notícia mais feliz que poderíamos ter, João Henrique estava de alta. Poderíamos, finalmente, ir para casa.

Pedi, gentilmente, para a minha amiga Fabiana Beltrami fazer um breve relato sobre fotografar um momento tão especial, ai vai:

“Fazer as fotografias da Verônica, do Henrique e do JH, me deixou preocupada tecnicamente porque nunca tinha tirado fotos de um nascimento. Arrumar equipamento, carregar a bateria, escolher a lente e deixar o cartão vazio, parecia que era só isso que eu precisava preparar, mas não. Registrar o meu primeiro bebê em seu nascimento não foi fácil, parece clichê, mas para mim foi difícil. Não porque é uma cena forte, porque tu vê a expectativa de uma família em receber uma pessoinha que vai depender de muita gente e de alguns anos para se tornar um adulto e que é preciso registrar o momento mágico. Pra mim não foi bem assim. Foi difícil. Foi difícil porque me preocupo com a despreocupação das pessoas com o meio ambiente, com as pessoas que não atravessam na faixa de segurança e que os carros, cada dia mais potentes, transitam de um lado para o outro em alta velocidade na cidade. E, principalmente, que este bebê um dia vai ser um adulto sendo moldado por tudo o que vai passar ao seu redor – amigos, família, escola, emprego, rua, sol, chuva… Posso ser um pouco pessimista em relação ao futuro que cultivamos para os pequenos que chegam. Mas, ao mesmo tempo em que foi difícil durante o parto, que segui até minha casa a pé, aos prantos, eu me senti encantada com a energia ao redor desta criança. Fiz fotos, capturei imagens, mas o que ali tinha era uma roda de amor energizando o JH, para que a sua trajetória neste planeta seja a mais alegre, proveitosa e saudável possível. Ao ver os adultos nesta espera me faz ser mais suave e acreditar que a sorte, de um mundo com mais amor, está entre nós, mas profundamente desejo que esteja com todas as famílias que recebem a preciosidade da vida em seu lar. Até o JH nascer eu não queria ter filhos, no início de junho fotografei mais um parto, a do meu afilhado Pedro. Acho que os partos me pegaram de jeito e agora está surgindo um “quem sabe precisarei alguém que registre pra mim?!…”.

Verônica Muccini

Verônica Muccini é jornalista, mas brinca que tem a alma de Relações Públicas, porém foi na maternidade que descobriu o seu maior desafio. Divide as suas angústias, conquistas e trapalhadas com o pequeno João Henrique aqui no Depois da Chegada.

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